AmarElo: O poder da ressignificação através da arte.


Cena do show no Theatro Municipal de São Paulo do documentário AmarElo.(Crédito: Jeferson Delgado)


“Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje”, Emicida abre seu documentário recitando um ditado Yorubá para exemplificar seu trampo através da sua ancestralidade onde tudo se torna uma só coisa no final. De tão potente mensagem, carrega em si enorme poder de inquietação de que concertar os desencontros e injustiças do passado é urgente e é pra ontem, o chamado pra luta antirracista é pra ontem.


Personalidades negras e fortes tiveram que botar as caras e lutar para o reconhecimento devido da sua importância para a construção da cidade de São Paulo, inclusive na construção do Teatro Municipal, palco de uma elite branca e privilegiada, mas que abriu as portas pela primeira vez graças à luta desses mesmos antepassados para a quebrada ser seu público principal através do show do Rapper, é um momento histórico, de ocupação de espaços e ressignificações.


Foto/Divulgação.


Falar de AmarElo exige um aprofundamento na história por trás da terra em que firmamos nossos pés e ao mesmo tempo nos exige um mergulho pra dentro de nós mesmos.


AmarElo é um dos tremendos golpes no cerne de toda a arrogância intelectual que assombra a arte durante décadas. O conceito formulado de uma suposta “arte superior”, cai por terra com o documentário, que nos mostra que a desvalidação artística do Samba, tem muito mais a ver com um apagamento histórico do que com conceitos técnicos que tentam ditar a fórmula da boa arte. Ainda pior, essa ideia tem a ver com a invisibilização desses artistas, um processo de remover uma das únicas vozes de protesto e opção de lazer que lhes resta. Este é apenas um dos muitos, inúmeros, talvez infinitos pensamentos de resistência que Emicida sabiamente planta nos espectadores.


Quando histórias grandiosas são apagadas e invisibilizadas todos nós perdemos enquanto sociedade brasileira. O que Emicida fez foi recontar essas histórias com uma linguagem clara e didática, esse documentário deveria ser incluído nos currículos escolares, reforçando a importância do ensino da História e Cultura Afro–Brasileira nas escolas já determinada pela lei 10.639/03. AmarElo, que até aqui era apenas um primor técnico e um convite ao diálogo, agora se torna resgate e documento de uma história apagada e invisibilizada,


Abordando temas como saúde mental, a importância da alimentação orgânica e saudável para o estabelecimento de uma vida melhor e como isso afeta as quebradas informando alternativas para que esse caminho se torne algo real e palpável, o poder terapêutico do cultivo das plantas, a história ancestral dos negros no Brasil abordando seus aspectos sociais e artísticos, como o surgimento do Samba. Tudo contendo uma ligação quase que natural, na formação individual de todos os nossos irmãos.


Arte por: Amanda Lopes de Medeiros.


A arte é semente para tomada de consciência, e Emicida sabe disso. O Doc, reflexo do próprio disco AmarElo, lançado em 2019 e vencedor do Grammy latino de melhor disco de rock ou música alternativa em língua portuguesa, mistura elementos de uma arte política, questionadora, de função social, afeto e resistência, tudo que esperamos de artistas grandiosos. Assistir AmarElo é pra ontem.


Por: Isabela Miranda.

Via: @liricamaginal.